O tempo do abraço
Amar é se dar e se mostrar
Quando te abracei pulsou em mim teu balé cotidiano. Foi no meio da rua nervosa. Foi como abraçar as batidas do coração, esse contador de histórias sobre o qual parecemos não ter controle.
Ao abraçar teu peito, vivi emoções alheias. Eram danças da tua pessoa, movimentos teus, dúvidas tuas, teu encantamento diante do inesperado. Foi como se nos integrássemos um ao outro: meu inconsciente entrelaçado ao teu.
Enquanto teu íntimo questionava (talvez você considerasse minha sinceridade insuficiente, ou talvez eu mentisse sinceramente e você acreditasse), eu, concentrado e feliz, te dizia que abraçar é se dar e se mostrar, cruzar o fogo no interior da mata fechada. Escancarar-se com belezas e, cercado por todo o pensar, ser nada por alguns instantes.
O abraço tem cheiro, eu disse. Cheira bem, cheira mal, é sempre troca. Positiva ou negativa, troca. O abraço tem o "dom" de aproximar as pessoas. Contém em si mesmo a dialética da relação humana: se, por um lado, provoca desdobramentos intermináveis de emoções e sentimentos, por outro, transforma duas ou mais pessoas num só coro.
O abraço é revolucionário, meu amor. Incomoda e interfere, provoca ansiedade nos desacostumados a ele. O abraço faz bem ao músculo coração! É uma manifestação evidente de amor e a expressão mais clara do apreço por alguém. O abraço não deixa dúvidas.
Mas não pense que ele pode acontecer assim de repente, do dia pra noite (embora seja capaz de acender à noite!): um abraço carece de tempo para se constituir, para amadurecer e se apertar. Aliás, o abraço com tempo é o melhor. Aquele no qual encostamos a cabeça na cabeça do outro e os braços e as pernas e o sexo se encaixam com perfeição! Gostaríamos de ficar naquela quentura sempre por mais tempo.
O abraço no futebol é diferente: embora efêmero, a força que há no abraço resultante de um gol de raça contagia o mais frio dos homens. O abraço pode ser uma questão de tempo e o tempo de um abraço a dimensão do sentir. À medida que amadureço, me torno mais vulnerável aos ataques de abraços. Na verdade, os procuro sem oferecer a menor resistência. Acredito na sabedoria das crianças, que não abraçam qualquer um e nem por qualquer motivo.
Acho que o abraço alimente a doação do amor há muita gente deserta de a braços neste planetinha repleto de ruas como esta em que nos encontramos entrelaçados até agora, esquecidos pela tarde, esse tempo inventado pelo sol que aquece, aquece e nos abraça por inteiro pelo menos uma vez a cada dia.
Hélio de Alcântara
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