Esperar ou fazer acontecer?

Certo dia, conversávamos eu e meu esposo sobre os ditados "quem espera sempre alcança", defendido vorazmente por ele, e "quem sabe faz a hora, não espera acontecer", praticado por mim. Na ocasião, a questão ficou em aberto, mas perdurou e passou a exigir maior aprofundamento. E hoje eis-me aqui, no labirinto de tantas indagações. Mas será que quem espera sempre alcança, ou seria isso uma forma de fatalismo, a 'desculpa dos acomodados'? Sim, porque, nesse caso, imagina-se que "o que tiver de ser, será" e, sendo assim, não se precisaria mover-se para se atingir os objetivos. Tudo viria por determinação divina. É o que chamam Destino, tal qual o fio da vida humana, tecido pelas parcas na mitologia grega. Mas aqueles que assim pensam acabam por desmerecer o livre arbítrio, ou mesmo aniquilá-lo, tornando-o totalmente dispensável, pois 'se o que tiver de ser fatalmente e inevitavelmente o será', obviamente que 'aquilo que não tiver de ser, não o será', não obstante os mais hercúleos esforços. Conseqüentemente, todas as batalhas, todas as lutas, tornar-se-iam descabidas e levariam apenas ao desgaste da energia vital. A bíblia a isso se refere, quando diz: "se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam", e ainda, "aquietai-vos e sabei que eu sou Deus".

Carl Gustav Jung, psicólogo suíço, mencionou certa vez que sua vida 'foi  realização de seu inconsciente', do 'si mesmo'. O inconsciente, o Eu mais profundo, teria, pois, a capacidade de se auto-realizar. Talvez isso seja o mesmo que "entregar nosso caminho a Deus" - pois, se existe um inconsciente, foi Deus quem o criou. Citando mais um exemplo, ainda na bíblia, lê-se: "entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle, e Ele tudo fará".

Esse contexto trata da inação, que se distingue, porém, da omissão. Quando uma ação faz-se necessária e não é executada, ocorre a omissão. Nesse caso, os que não lutam, não pensem que estão a salvo das responsabilidades, porque a omissão é igualmente uma ação, só que negativa, e precisa ser considerada.

Os que se omitem são tão responsáveis quanto os que agem erroneamente, com a diferença que não são acusados pelo erro; no máximo, pela covardia. Mas há uns raros que se omitem por pura sabedoria, reconhecendo que em tudo há um momento, e há o tempo de agir, e o tempo de se omitir.

Por outro lado, no Existencialismo, Sartre defende que a inevitável condição humana é de sermos 'condenados à liberdade'. Essa condição, mesmo em pequena escala - se considerarmos que nunca somos totalmente livres - gera em nós uma imensa responsabilidade sobre nossas vidas. Por isso foi tratada como uma 'condenação'. Nós somos livres, e não temos escolha quanto a isso. É nessa liberdade que se encontram as razões daqueles que não se permitem esperar. Com base nesse fundamento, há os que lutam incansavelmente, julgando que o resultado final sempre dependerá de sua intervenção; esses, mesmo julgando-se homens de fé, não conseguem simplesmente "entregar". Precisam fazer algo por si mesmos.

E quanto àqueles que 'fazem a hora e não esperam acontecer'? Será que realmente 'sabem'? Não seria esta luta demasiada uma fraqueza do espírito? Acaso a verdadeira força não estaria naquele que consegue e 'sabe' esperar? Pois quem espera, mesmo não atingindo o objetivo desejado, alcança o domínio de si próprio, e quem aprendeu a dominar-se já está na paz, e isso é afinal o que todos buscam. Essa questão é essencial, porque antes de se fazer algo, faz-se mister ter sabedoria para agir. Não adianta atuar de qualquer maneira.

É fato, há os que não conseguem esperar tempo algum, e saem 'des-esperada-mente' em busca de seus ideais, o que às vezes os leva a tropeçar logo no início, e com o tropeço vem a desistência. Há os que tropeçam muitas vezes, mas não desistem nunca, não se acomodam e lutam obstinadamente, e ficam sempre 'dando um jeitinho', 'mexendo os pauzinhos' ... E acabam conseguindo um bocadinho de coisas com isso, embora de algumas se arrependam, às vezes sem ter como remediar. Ainda, há os que sempre esperam, e nunca arriscam e, se nada ganham, também não se culpam pelo que perderam. São os verdadeiramente acomodados. Finalmente, há aqueles - gloriosos! - que sabem, ao mesmo tempo, esperar e reconhecer o momento de fazer acontecer, e estes são verdadeiramente abençoados, têm uma intuição que geralmente os leva a agir corretamente e a alcançar as maiores alturas na realização de seus sonhos. Esses devemos, com certeza, tomar como exemplo.

Mas a vida é um caleidoscópio de múltiplos fatores, alguns totalmente imprevistos. No dizer de Guimarães Rosa, 'é mutirão de todos', cada um com o seu jeito, acomodado, lutador, ou sábio. Por isso, nem sempre teremos êxito, por mais que saibamos esperar e reconhecer o momento. Por vezes, justamente na espera é que erramos, e perdemos o bonde de nossos sonhos... Porque era necessário, justo naquele momento, lançar-nos sem medo. Alguns, no entanto, de tanta pressa, adiantam-se, e acabam por pegar o bonde errado. A sabedoria, porém, contribui para se chegar na hora certa.

Ó intrincada, emaranhada, paradoxal condição humana! Que fazer com a liberdade, a não ser aprender a usá-la? E para aprender, às vezes se erra, pois se é simplesmente humano... E muitas vezes um erro gigantesco leva a um acerto fenomenal. Já diz o provérbio: 'há quedas que provocam ascensões
maiores'. Sim, há quedas que provocam verdadeiros triunfos. Porque às vezes se aprende tanto com os próprios erros até se recriar, numa verdadeira 'conversão', uma Fênix a renascer das cinzas.

É-nos impossível dominar a realidade profunda dos acontecimentos. Não se controla o futuro - como diz Toquinho, ele é apenas 'uma astronave que tentamos pilotar'. Mas há sempre algo que podemos fazer, no seu devido tempo. Ao contrário do que muitos pensam, a vida não gira em círculos, não é
uma eterna repetição. Existe algo de novo na vida, um 'fator x', algo que depende de nós, e é por isso que precisamos 'fazer acontecer'!

Ser ou não ser, agir ou esperar. Uma questão que se coloca em um abismo de múltiplas possibilidades, em que uns podem cair, mas que a outros ensina a voar. O vôo da verdadeira humanidade, da realização de potencialidades inimagináveis. O eterno 'vir-a-ser', o arriscar, o realizar, o esperar, o superar. O 'salto quântico' do ser humano.

Deus concedeu-nos a liberdade (mesmo que pequena, se aceitarmos a existência de um 'inconsciente') e, assim, dotou-nos com a característica da transcendência, que é justamente o que nos torna humanos e não nos faz apenas sujeitos aos acontecimentos, mas também, sujeitos dos acontecimentos!

Concedeu-nos também a consciência, para através dela alcançarmos o sábio uso dessa liberdade, quanto ao seu modo e seu tempo.

Portanto, no agir da ação ou no agir da espera (pois lembremos que a sábia espera também é uma ação), demos o melhor de nós, deixemos as omissões e a mediocridade, e embarquemos numa viagem de encontro aos infinitos modos de sermos e de vivermos.

Marise Vale Girão, com a colaboração de Thomas Boyadjian Neto

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