Construindo a paz:
Caminhos e prevenção da violência doméstica
A raiva é uma das emoções humanas básicas, necessária à sobrevivência. Quando canalizada e bem direcionada, forma a base da capacidade de ser assertivo, de lutar por objetivos e de defender-se quando atacado. No entanto, quando a reação agressiva fica fora de controle, a raiva dá origem ao ódio e tende a expressar-se por condutas violentas.
As raízes e as expressões da violência são múltiplas e a escalada da violência nas últimas décadas, em grande número de países, tem atingido proporções consideradas epidêmicas. A questão do controle e da prevenção da violência passou a ser vista como um problema de saúde pública, demandando intervenções em vários níveis.
Por outro lado, cresce também o interesse pela construção da paz, entendida como um processo que exige esforço contínuo, não apenas por parte das pessoas que decidem engajar-se neste movimento (construção da paz interior que se reflete na busca de harmonia nos relacionamentos pessoais) como também em instituições voltadas para esta finalidade, como a Universidade Internacional da Paz e em organizações que desenvolvem programas especiais de Educação para a Paz, como a Unesco ao defender a idéia de que é necessário criar uma cultura da paz, após tantos séculos em que predominou a cultura da guerra.
Estudos mais recentes de psicologia do desenvolvimento, auxiliados pela tecnologia atualmente disponível (ultra-som com alta resolução de imagem, análises computadorizadas de movimentos corporais sutis) apresentam a noção do "bebê competente" que, desde a vida intrauterina, é um ser capaz de interação e de formar os alicerces dos vínculos afetivos. Demonstrou-se, também, que a capacidade de comunicação e de empatia existe desde os primeiros anos de vida e que pode ser estimulada pela ampliação dos recursos de comunicação. A partir desses dados, desenvolveram-se programas de educação para a paz para crianças na pré-escola e orientações para os pais e educadores visando a utilização de métodos não violentos de disciplina e de resolução de conflitos. E mais: o fortalecimento das bases amorosas do vínculo desde a época da gravidez, a assistência ao parto que leva em conta as necessidades de bom acolhimento e de aconchego do recém-nascido, a prática do alojamento conjunto e o incentivo ao aleitamento materno também fazem parte de um programa mais extenso de prevenção primária da violência. A esperança é formar gerações capazes de lidar com impasses e conflitos de modos não violentos.
RECURSOS DE COMUNICAÇÃO PARA A PAZ
Uma das maneiras mais eficazes de fazer a prevenção da violência na família e na escola é concentrar esforços na ampliação de recursos de comunicação visando a construção da paz. Os princípios básicos transmitidos neste trabalho com alunos, pais e professores são os seguintes:
a) Aprenda a ouvir com atenção, consideração e sensibilidade - Ao ampliar sua capacidade de ESCUTA SENSÍVEL, será possível entender e captar o que está nas entrelinhas das palavras, da linguagem do corpo e dos atos. É o desenvolvimento da arte de ouvir o que os outros dizem que dá maior flexibilidade para olhar os vários ângulos de um problema e melhores condições para criar soluções eficazes. Carl Rogers foi quem mais escreveu sobre a importância dessa compreensão empática, ao falar sobre a "reflexão dos sentimentos" como uma das melhores maneiras de mostrar que conseguimos nos colocar no lugar do outro e entender seus pontos de vista.
Desde bem pequenas, as crianças apresentam capacidade de empatia. É muito importante que este desenvolvimento seja estimulado para que se desenvolvam os sentimentos de compaixão, compreensão e solidariedade. Isto é essencial para contrabalançar a impulsividade e a violência. Como mostra trabalho recente de Fonagy ao sintetizar um grande número de estudos sobre a delinqüência, já é possível prognosticar distúrbios de conduta desde a mais tenra idade e entrar com intervenções apropriadas. Uma das principais linhas de trabalho consiste em esclarecer os "circuitos interativos" visando ampliar o campo da reflexão e de alternativas de conduta mais aceitáveis. Por exemplo: "Quando você arranca o brinquedo da mão do seu irmão, ele fica assustado e chora e eu fico muito zangada com você; aí a gente briga e você fica triste, achando que eu gosto mais dele do que de você". E propostas de outros tipos de ação: "Sei que você está chateada porque não vou poder sair com você agora. Acontece que cheguei em casa muito cansado. Mas, em vez de brigar, podemos combinar outra coisa?"
b) Aprenda a reclamar do que não gosta sem ofender, humilhar ou atacar a pessoa - Por exemplo: "Fico danada da vida quando encontro sua toalha molhada em cima da cama. Coloque no banheiro, por favor", em vez de: "Só um imbecil como você é capaz de deixar uma toalha molhada em cima da cama!". Expressões ofensivas magoam, enraivecem, geram atitudes de revolta, resistência, provocação e contra-ataque. Desta forma, contribuem para o aumento da violência e não resolvem os problemas.
c) Aprenda a atacar o problema e não a pessoa - Por exemplo: Em vez de simplesmente reclamar: "Pô, pai, você é careta demais mesmo, não dá pra entender por que eu quero ir nessa festa?", tente negociar uma solução mais satisfatória: "Pô, pai, vamos tentar chegar a um acordo sobre o horário de sair da festa". Em vez de se preocupar com ganhar ou perder a discussão, preocupe-se em encontrar uma solução. Resolver o problema sem atacar as pessoas envolve a disposição de ouvir o que a pessoa tem a dizer, tentar entender seus argumentos e pontos de vista, expressar os próprios pensamentos com clareza e tentar negociar uma solução razoável para ambas as partes. Este é o núcleo básico dos programas de EDUCAÇÃO PARA A PAZ. Ao tentar resolver os impasses e os conflitos por consenso evita-se tanto o autoritarismo (por exemplo, os pais impondo sua vontade sem se importar com o que os filhos pensam e sentem) quanto a permissividade ( por exemplo, os pais oprimidos, com sentimentos de culpa e os filhos tiranos, agindo impulsivamente segundo seus próprios desejos). No método de consenso ou "resolução conjunta de impasses e conflitos", as necessidades de ambas as partes são levadas em consideração. Estimula-se, portanto, a reciprocidade, a criatividade na busca de soluções, a compreensão e a cooperação no sentido de formar os "acordos de bom convívio" , no que poderia ser denominado "democracia doméstica".
d) Aprenda a controlar a raiva - Quando esta se intensifica a tal ponto que corre o risco de desembocar em atos violentos. A raiva em excesso nos faz "perder a cabeça" e acabamos dizendo ou fazendo coisas das quais nos arrependemos depois. Portanto, quando sentir a raiva "subir", antes de "virar vulcão" e explodir violentamente em cima de quem estiver por perto, tente afastar-se, respirar fundo, contar até vinte, socar uma almofada, beber um copo d'água ou tomar qualquer outra providência que "esfrie a cabeça" antes que você a perca. Aprenda também a perceber o que você faz que provoca uma raiva violenta nos outros, que acaba se voltando contra você mesmo: é a sua maneira arrogante de pedir alguma coisa como se estivesse exigindo que a pessoa lhe atenda no mesmo minuto? É insistir além da conta, com a esperança de "vencer pelo cansaço"? É a mania de "brincar de gangorra", ou seja, criticar e depreciar os outros para você se sentir o tal? "Aprenda a controlar a raiva antes que ela controle você" é o título de uma publicação da Associação Americana de Psicologia que apresenta linhas de ação a serem desenvolvidas para conseguir o auto-controle da raiva, aspecto essencial no trabalho com famílias que apresentam problemas de violência doméstica.
e) Aprenda a dizer o que gosta com relação ao que os outros dizem ou fazem - "Adorei a comida que você fez hoje"; "gosto quando a gente conversa durante o jantar, em vez de ligar a televisão". No dia a dia, esta atitude é essencial para criar um clima de harmonia e bem-estar, não só nos relacionamentos familiares como também no âmbito social e profissional. Quando os outros percebem que reconhecemos o que eles fazem de bom, passam a nos tratar com mais carinho e gentileza. Valorizar as pequenas alegrias, os pequenos ganhos, os pequenos progressos - tudo isso ajuda a construir o OLHAR DE APRECIAÇÃO, base da formação da auto-estima e do gosto pela vida.
f) Aprenda a descarregar as tensões inevitáveis de modo saudável - Muita gente se sente mais calma e relaxada depois de uma hora de ginástica, natação ou qualquer outro esporte em que se descarregam tensões e raivas acumuladas de modos não destrutivos. A prática do relaxamento e da meditação, independente do método utilizado, é um dos caminhos mais eficazes para atingir a serenidade, mesmo em épocas difíceis, e construir a paz interior. Vale mencionar que a maioria das pessoas envolvidas com o abuso do álcool e outras drogas ilícitas tiveram, como motivação inicial, relaxar as tensões do dia ou fugir dos problemas. O resultado é que, em conseqüência do abuso de substâncias psicoativas, os problemas se agravam e os episódios de violência se intensificam. Daí ser fundamental, no trabalho de prevenção primária, estimular modos saudáveis de descarregar tensões e cultivar a alegria nos pequenos momentos do dia a dia.
g) Aprenda a tolerar as diferenças - Comumente, a pessoa raivosa, agressiva e violenta é a que não aceita que os outros pensem e ajam de modo diferente do que ela deseja. A dificuldade de aceitar as diferenças (de desejos, opiniões, maneiras de ser, credos, partidos políticos ou etnias), aliada com a possibilidade de abuso do poder (político, econômico, social ou da força física) é uma das principais raízes das condutas violentas. O exercício da tolerância é a base da formação dos acordos de convívio, em que as pessoas buscam criar soluções para impasses e conflitos que sejam razoáveis para todos. Tolerar as diferenças e conseguir fazer acordos significa também ser capaz de tolerar frustrações, aceitar a realidade de que nem sempre acontece o que a gente quer na hora em que gostaríamos. A pessoa raivosa e impulsiva tem baixa tolerância à frustração e explode quando as coisas acontecem diferente do esperado. Ser capaz de esperar, contornar obstáculos, modificar seus desejos e fazer acordos são habilidades indispensáveis ao auto-controle da raiva e à capacidade de lidar com as frustrações inevitáveis de modos não destrutivos. Em outras palavras, ser assertivo sem ser violento.
h) Aprenda a usar métodos não violentos para colocar limites e estimular a disciplina - Dizer que a criança só atende com gritos e palmadas é o caminho mais curto para criar o circuito da violência doméstica: muitas crianças passam a desafiar as ameaças, dizem que a palmada não doeu e fingem que não escutam os gritos e isto exaspera ainda mais os pais que passam a gritar e a bater ainda mais, como único recurso de serem atendidos. Essas medidas disciplinares desembocam na violência física e, sobretudo, na violência psicológica quando as ameaças tornam-se pesadas a ponto de aterrorizar a criança ou desembocam em críticas, xingamentos, condutas de rejeição, isolamento e abandono.
Muitos pais batem não só porque não conseguem colocar limites de modo firme, sereno e consistente mas, sobretudo, porque acham que este é um meio legítimo de impor disciplina. No entanto, quando perguntamos se acham que os professores ou a babá poderiam dispor desse recurso para serem obedecidos, ficam indignados e respondem: "Claro que não!". Portanto, se os pais acham que educadores e empregadas domésticas precisam usar métodos não violentos para colocar limites e estimular o cumprimento das tarefas, por que eles próprios não conseguem fazer o mesmo? Uma publicação conjunta da Associação Americana de Psicologia e da Academia Americana de Pediatria sugere o uso de diversos métodos não violentos de disciplina, tais como colocar a criança "para pensar", privá-la temporariamente de coisas que ela gosta ou restringir atividades tais como brincar com amigos ou ver TV caso não tenha cumprido suas obrigações.
Portanto, essas são as habilidades básicas a serem desenvolvidas para que as pessoas atuem como construtores da paz. Para colocar em prática essas habilidades é importante prestar bastante atenção às "miudezas do cotidiano", tanto na família quanto na escola e no grupo social. Os grandes temas da vida e os valores fundamentais que possibilitam a paz e o bom convívio (cooperação, gentileza, consideração, generosidade, solidariedade) são desenvolvidos a partir das pequenas situações do dia a dia do relacionamento entre pais, filhos, irmãos, professores e colegas de turma, desde a época da pré-escola.
AÇÕES DE CONTROLE DA VIOLÊNCIA
A Universidade de Washington fez uma revisão dos resultados de inúmeras pesquisas num documento que sintetiza os principais fatores que contribuem para a violência e sugestões de ação em vários níveis por parte de profissionais e da sociedade civil como um todo para favorecer o melhor controle da violência. Os seguintes fatores têm destaque especial:
Extrema pobreza, miséria, desemprego - Sobretudo quando aliadas à falta de esperança de melhores perspectivas e a um contexto de profundas desigualdades sociais, aumentam o índice de violência. Falta de moradia, fome, violência nas ruas, o aliciamento de crianças e jovens para o "exército paralelo" do tráfico de drogas, o crescimento alarmante da gravidez entre adolescentes perpetuando o ciclo da miséria, todos esses são fatores de risco para o incremento da violência. Programas de geração de empregos, de renda mínima para as famílias que se comprometem a manter as crianças freqüentando a escola, maior investimento em saúde e educação são exemplos de ações essenciais para maior justiça social e prevenção da violência.
Gravidez de adolescentes - Em grande número de casos resulta em maior incidência de depressão, falta de capacidade de cuidar e de sustentar a criança, falta de apoio social, menores oportunidades de prosseguir os estudos ou conseguir empregos, desvantagem sócio-econômica. A conjunção destes fatores coloca a relação mãe-filho na área de risco de violência doméstica. Programas eficazes de orientação, acesso a meios anticoncepcionais para prevenção da gravidez indesejada e equipes multidisciplinares de atendimento à adolescente grávida são medidas essenciais para minimizar os riscos de distúrbios emocionais.
Uso abusivo de álcool e de outras drogas lícitas e ilícitas - O alcoolismo, sobretudo quando associado à facilidade de acesso a armas de fogo e à dificuldade do controle da raiva, aumenta dramaticamente o índice de homicídios. Entre os jovens, já é a principal causa de mortalidade em alguns países.
Fácil acesso a armas de fogo - Que aumentam não só o número de homicídios como também o de suicídios, inclusive na adolescência. Um número especial de "Pediatrics", dedicado ao exame do papel do pediatra na prevenção da violência, dá ênfase especial à orientação para que as famílias evitem ter armas de fogo em casa como medida de segurança e estimula os profissionais de saúde a participar ativamente de campanhas a favor da restrição ao porte de armas e até mesmo da fabricação de armas de brinquedo, por servirem de modelo para condutas violentas.
Abandono e negligência das crianças - A dor da rejeição, do abandono e da negligência gera frustração, insatisfação crônica das necessidades básicas e baixa auto-estima. Para um grande número de crianças, a carência do amor e da "nutrição afetiva" cria condições propícias para o nascimento do ódio e da revolta que desembocam em condutas violentas e em delinqüência. Como mostra Winnicott em seu trabalho sobre a íntima ligação entre tendência anti-social e privação emocional nos primeiros anos de vida, a esperança de ser percebido, mesmo que seja para receber punição, está presente nas condutas anti-sociais. A estruturação da capacidade de sonhar e fazer projetos de vida é um dos caminhos de recuperação de crianças carentes, como se evidencia no bem-sucedido projeto Axé, com meninos de rua em Salvador. Partindo da "pedagogia do desejo", caminhos de profissionalização e capacitação para construção de metas de vida e de trabalho são pacientemente trilhados.
As linhas de ação para a prevenção e o tratamento da violência doméstica são fundamentais, uma vez que o ciclo da violência tende a passar de uma geração a outra: um número expressivo de adultos abusadores foram crianças vitimizadas pelo abuso de outros adultos, mais freqüentemente dos próprios familiares. A obrigatoriedade de notificação aos Conselhos Tutelares, ou à Vara da Infância e da Juventude que muitas vezes atuam em conjunto com entidades especializadas no atendimento às vítimas da violência, como a ABRAPIA, é um caminho necessário para o controle da violência doméstica, em situações de risco.
A glamorização da violência na mídia - Tanto a revisão das pesquisas da Universidade de Washington como uma publicação da Universidade de Minnesota e o número especial de "Pediatrics" citam incontáveis estudos sobre os efeitos nocivos da excessiva exposição à violência na TV, nos videogames, filmes e revistas em crianças e adolescentes. Basicamente, o aumento da incidência de condutas violentas deve-se à identificação com modelos agressivos "bem sucedidos", perda da capacidade de se chocar com a violência e aprendizagem de condutas violentas como método aceitável de resolver conflitos. As sugestões de pautas de ação variam desde a orientação às famílias para restringir ao máximo a exposição de crianças e jovens à violência na mídia criando outras alternativas de lazer até a criação de campanhas do tipo "Desligue a Violência" para fazer pressão junto aos produtores de programas e exibidores de filmes para melhorar a qualidade do que oferecem.
Há também a questão da exposição traumática à violência, seja de certas cenas veiculadas pela mídia, seja por presenciar diretamente cenas tais como assaltos, assassinatos ou brigas violentas dentro de casa. Muitas crianças e jovens reagem com sintomas típicos da síndrome de estresse pós-traumático: revivência das cenas chocantes, pesadelos, terror noturno, sudorese, taquicardia, estado de hiper-alerta, além dos distúrbios no próprio processo de pensamento (dificuldade de concentração e de atenção).
Falta de assistência do Estado - A falta de investimentos do orçamento governamental nas áreas de educação, saúde e segurança facilita o surgimento de "poderes paralelos", especialmente vinculados ao tráfico de drogas que cria um "Estado dentro do Estado", facilitando a escalada da violência; a impunidade frente aos episódios de corrupção e abuso do poder também são fatores que contribuem para o incremento da violência.
O FORTALECIMENTO DA RESILIÊNCIA
A pergunta que surge ao examinar os fatores que contribuem para a violência é a seguinte: Por que um certo número de pessoas, mesmo quando submetidas a situações extremamente desfavoráveis, desde a mais tenra infância (abandono, miséria, abuso sexual, falta de oportunidades de estudo e/ou trabalho, etc.), não se tornam violentas, apesar de terem vivido em condições propícias ao nascimento do ódio e da revolta? O conceito de RESILIÊNCIA, que Grotberg define como a capacidade de pessoas, grupos ou comunidades minimizar ou superar os efeitos nocivos das situações difíceis e das adversidades é uma das mais recentes tentativas de responder a esta pergunta.
Enfrentar situações muito difíceis gera crises na pessoa e em seu grupo familiar: doenças graves de familiares próximos, separação ou morte dos pais, desemprego, miséria, a vida numa comunidade violenta (crianças que presenciam assassinatos, que foram assaltadas ou seqüestradas), perdas significativas (perder pessoas queridas, perder a casa em conseqüência de incêndio, inundação ou deslizamento, ter que sair do país como refugiado). Situações de vida como essas são potencialmente traumáticas. No entanto, as pessoas resilientes conseguem "atravessar" esses momentos difíceis sem se desestruturar, como uma árvore flexível cujos galhos se dobram num vendaval, mas não se quebram. As crises representam um enorme desafio: é fundamental ter flexibilidade para criar novas soluções para os problemas que surgem, ter determinação e força para enfrentar as dificuldades, saber procurar e pedir ajuda eficiente.
Os profissionais que pesquisam os "ingredientes básicos" da resiliência dizem que esta força interior é, em parte, inata: há pessoas que, por herança genética e por temperamento são mais resilientes que outras. No entanto, a resiliência também pode ser desenvolvida no decorrer da vida, especialmente durante a infância e a adolescência: para isto, é fundamental que os adultos importantes para a criança e para o jovem saibam escutá-los e compreender o que sentem diante das situações que enfrentam; encorajem a expressão dos sentimentos de tristeza, raiva e medo; ofereçam o apoio necessário para que eles se sintam seguros embora incentivem sua independência e iniciativa para criar saídas e soluções para os problemas. Desse modo, a auto-estima sai fortalecida e a resiliência aumenta: em vez de se sentir traumatizada e derrotada pela vida, a pessoa sente-se mais competente para encarar os desafios inerentes às crises. Portanto, a qualidade da ajuda oferecida e do relacionamento que se desenvolve são " ingredientes" indispensáveis para o desenvolvimento da resiliência.
Assim como crianças e jovens que foram submetidos a situações de abuso físico, sexual ou psicológico tendem a tornar-se adultos abusadores quando não conseguem superar o trauma, as pessoas que receberam ajuda para fortalecer a auto-estima e a resiliência tendem a ajudar outras pessoas que enfrentam as crises da vida: ao serem compreendidas, tornam-se mais compreensivas, desenvolvendo seu potencial de empatia e de solidariedade. Sem o relacionamento afetivo de ajuda, crianças e jovens passam pelas crises com muito sofrimento, solidão, angústia e desamparo.
O mais importante é saber que NINGUÉM NASCE VIOLENTO, embora o impulso agressivo faça parte da natureza humana. É preciso construir firmemente a mentalidade de que A VIOLÊNCIA É INACEITÁVEL, tanto por parte dos adultos quanto por parte de crianças e jovens. A violência é um comportamento aprendido nos processos sociais entre pessoas, instituições e sociedades. Portanto, A VIOLÊNCIA PODE SER DESAPRENDIDA: é possível aprender maneiras não violentas de lidar com a raiva e a resolver conflitos por meios pacíficos.
Osofsky, em revisão de várias pesquisas recentes, ressalta os fatores principais que podem reduzir a violência:
Melhor interação entre pais e filhos, e entre educadores e alunos;
Identificação com modelos positivos;
Participação da comunidade no combate à violência;
O envolvimento positivo da polícia com a comunidade.
A ação conjunta de organizações governamentais e não-governamentais, o esforço individual de um número crescente de pessoas para criar um clima harmônico em seus relacionamentos e o fortalecimento dos sentimentos de compaixão e de solidariedade que possam permear a sociedade civil como um todo poderá construir o caminho para o estabelecimento da CULTURA DA PAZ.
Este texto foi publicado na revista Catharsis, ano 3 n.15, 1997 e é uma síntese do livro "Os Construtores da Paz - Caminhos da Prevenção da Violência", ed. Moderna, S.P., 1997.
MARIA TEREZA MALDONADO
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